Como não engravidar
Estamos, mais uma vez, sentindo os reflexos da ofensiva conservadora. Agora vindos da Polícia Federal. A PF lançou a operação Pró Vita (repara bem no nome), que prendeu profissionais de saúde e pessoas envolvidas com a comercialização de remédios proibidos. Cerca de 30 mulheres foram levadas para prestar depoimento – as que colaborarem terão direito à delação premiada, reduzindo suas penas.
Quando a gente discute aborto (nos comentários do blog), é quase invariável a linha que se segue. Nós começamos falando que nenhuma mulher deveria ser obrigada a levar adiante uma gravidez não-desejada. A resposta é que, se não quisesse engravidar, a mulher deveria se prevenir. Após mencionarmos que, sim, somos a favor de ampliar o acesso a métodos contraceptivos (algo que enfrenta a oposição da Igreja Católica e outros setores conservadores), lembramos que não existe método infalível. Camisinhas estouram ou escorregam, pílulas podem não ser absorvidas corretamente pelo organismo, etc. Aí chegamos ao ponto central: a resposta a isso é “então, que não façam sexo!”.
Dificilmente esse discurso chega logo de cara, mas basta trocar algumas palavras para se revelar que o principal motivo para a interdição do aborto é regular a sexualidade da mulher.
Nos Estados Unidos, onde a onda conservadora é, se possível, ainda mais maluca, o alvo são as mulheres que usam contraceptivos e desejam que o plano de saúde corporativo cubra esse custo. Afinal, se uma mulher quer tomar pílula, deve ser porque ela quer fazer sexo, e, se quer fazer sexo, é uma vagabunda. Esses dias, comentando o caso, o humorista Stephen Colbert disse uma frase genial:
Além disso, se você não quer engravidar, só existe uma maneira garantida: seja um homem.
A gente sempre lembra que se homem engravidasse, o aborto seria legal e disponível em qualquer farmácia – como brinca o vídeo das Católicas pelo Direito de Decidir.
E já que estamos no assunto, saíram os resultados de uma pesquisa feita pela UnB com o perfil das mulheres que já fizeram aborto. A ampla maioria têm filhos, têm religião e são casadas. Estima-se que 5 milhões de mulheres já fizeram aborto no Brasil. 5 milhões. Acho que a Polícia Federal vai ter trabalho.
Duas ou três coisas sobre a luta contra a ditadura
As Blogueiras Feministas se juntaram a outras entidades do movimento de mulheres apoiando a moção pela Comissão da Verdade. Escrevi umas linhas por lá e já tinha falado sobre o tema anteriormente.
Tem dois argumentos que aparecem com frequência quando falamos da resistência armada à ditadura militar brasileira. O primeiro é “mas eles queriam implantar uma ditadura comunista no Brasil!”; o outro: “era loucura, impossível aqueles jovens conseguirem tomar o poder”. Queria falar um pouco de cada um.
“Mas eles queriam implantar uma ditadura comunista no Brasil!”
Em primeiro lugar, eles é muita gente. Havia uma série de grupos guerrilheiros na época. Muitos saíram do Partidão, como era conhecido o Partido Comunista, cuja direção havia decidido que a luta armada não era o caminho naquele momento. Dentre os grupos, havia mais proximidade entre alguns e divergências com outros – tanto em relação a tática de guerrilha, como em relação a estratégia, ao que fazer quando se tomasse o poder. Para afirmar o que “eles” queriam, é preciso analisar seus documentos. O grupo que eu conheço melhor, por leituras e entrevistas com ex-membros, é a ALN – Ação Libertadora Nacional. Como o nome já indica, o grupo defendia que o momento era de uma guerra de libertação nacional, já que a ditadura havia sido instalada pelo imperialismo americano no Brasil. O projeto de Marighella previa uma revolução nacionalista, que incluía até uma aliança com a burguesia nacional, como etapa para o socialismo.
“Era loucura, eles não tinham a menor chance”
Um grande erro é a gente olhar a história de trás pra frente e achar que ela era igual olhando de frente pra trás. As coisas parecem óbvias apenas depois que acontecem, mas a história está sempre em aberto. Por isso, gosto muito do Homem do Castelo Alto, do Philip K.Dick. A trama do livro se passa em um mundo em que o Eixo ganhou a Segunda Guerra. Ali, começa a circular um livro que conta o que teria acontecido se os Aliados tivessem ganhado a guerra. Uma hora, um personagem diz: “mas como?! era impossível para os Aliados ganharem a guerra!” (o mais interessante é que o cenário do livro dentro do livro é bem diferente do que aconteceu de verdade). Mas voltando ao assunto: não é apenas uma questão filosófica. O contexto da época era de diversos levantes na América Latina, alguns bem sucedidos. O combate entre uma guerrilha e um exército nunca é medido de forma direta pela quantidade de força. As vitórias conquistadas se dão de outra forma. Em 1959, houve a Revolução Cubana, que de frente parecia igualmente improvável. Em 1979, haveria a vitória dos sandinistas na Nicarágua. A vitória em Cuba foi importante não apenas para trazer esperanças, mas para, de modo prático, contribuir com treinamento e armas.
Outro argumento que aparece por aí é houve tiros dos dois lados. As diferenças são gritantes, mas cabe repetir. De um lado, tínhamos agentes utilizando o aparato do Estado para perseguir seus cidadãos, usando institucionalmente a crueldade. Chamar o outro lado de terrorista é uma tática baixa, pois quem promoveu o terror foram os agentes do Estado – com a participação de civis, como empresários e autoridades religiosas.
Contra a violência
Como hoje é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, resolvi publicar as fotos de alguns dos cartazes expostos na Casa del Alba, em Cuba. Os autores dos cartazes são homens, parte da campanha Atrévete a ser hombre: el machismo mata, da Red Iberoamericana de Masculinidades (RIM). A casa também abriga o projeto Todas contracorriente, coordenado pela cantora Rochy Ameneiro, que busca trabalhar questões de gênero e estimular o protagonismo feminino através da música.
Muito barulho por nada
Agora em novembro, passamos 11 dias em Cuba. Eu já antecipava que seriam dias majoritariamente offline e até lembrei de anotar num papel alguns endereços e telefones que não poderia recuperar pela internet. A internet em Cuba é precária. Para os cubanos, é necessária uma senha, fornecida pelo governo, e a navegação é filtrada – um médico com quem conversamos, por exemplo, tem acesso apenas ao portal de saúde Infomed. Para os turistas, há pontos de acesso em hotéis e lojas de telefonia. Cubanos podem tentar, mas pode ser solicitado o passaporte. Além disso, o cartão custa 12 dólares para uma hora, o que já é muito dinheiro para mim – para quem ganha salários de 30 a 50 dólares, então. Por outro lado, um cabo de fibra ótica está sendo puxado da Venezuela, há muitos jovens estudando informática e as escolas de comunicação já incluem cursos sobre jornalismo digital. Sinais de que mudanças estão próximas.
O fato é que eu usei, ao todo, uma hora e meia de internet em todos esses dias. O que para o meu padrão é uma ninharia. Eu costumo ficar online praticamente todo o tempo que estou acordada. Mesmo que não esteja usando o computador ou o celular, sei que eles estão ali, à disposição. Mesmo tarefas offline mais longas – como cuidar da casa – são temperadas com uma espiada no email ou nas notícias. Ou seja, em poucos dias eu já experimentava crises de abstinência. Mesmo tentando antecipar como seria a vida desconectada, a falta do recurso fácil às buscas, mapas e agendas me deixou desorientada.
Pois bem. Isso era previsível. Assim como a gente não lembra como resolvia as coisas antes da internet, não imaginamos muito como resolveríamos sem ela. O que me espantou foi a volta. Se foi difícil ficar longe, a volta foi dolorosa. Minha sensação era de alguém saindo de uma sessão de meditação e entrando em uma sala em que todos berram. Os primeiros amigos que encontrei após a volta também repetiram uma mesma frase: “você teve sorte de estar longe durante os acontecimentos na USP”. Ouvi mais de um caso sobre crises familiares provocadas por comentários nas redes sociais. Sim, eu sei que o silêncio que eu tive a oportunidade de ouvir se deve a uma restrição autoritária e nada desejável. Mas o barulho também é uma forma de calar vozes, de impor um “ganha quem falar mais alto”.
Eu relutei a admitir a tese de que a internet está aprofundando as tensões e aumentando a polarização nos debates. E não acho que seja só isso. O recrudescimento do fanatismo religioso, por exemplo, tem características semelhantes, mas acho difícil associá-lo à vida digital. Mas, sim, a internet é um espaço propício para radicalismos (mesmo que eu não considere o termo “radical” necessariamente ruim). Vemos que mesmo discussões que não são do campo estrito da política logo ganham dimensões de combate de vida ou morte.
Os autores que se dedicam a essa crítica culpam a facilidade que existe na internet para encontrar pessoas que pensam de forma parecida. Ao conversar apenas com nossos iguais, aprofundaríamos nossos pontos-de-vista e, ao perder o contato com as discordâncias, desaprenderíamos a debater de forma saudável. Essa é uma das premissas do Filter Bubble, de Eli Pariser, por exemplo. O autor mostra como sites como Google e Facebook se adaptam aos nosso gostos e passam a mostrar apenas aquilo que eles acham nos interessa. Ele diz que “Em uma era em que a informação compartilhada é o alicerce da experiência compartilhada, o filtro-bolha [como traduziu o professor André Lemos] é uma força centrífuga, nos separando uns dos outros”.
O livro traz dados reflexões excelentes e, mesmo essa, é muito importante. Mas eu acrescentaria que somada à força centrífuga, entra em ação uma força centrípeta, que nos atrai para o centro das polêmicas, que leva pessoas até então razoáveis e sensatas a ler os comentários nas notícias da Folha Online.
Quando eu era criança, ficava intrigada com a música do Vinicius: “e o bicho do pé / Que gostoso que ele é / Quando dá coceira / Coça que não é brincadeira”. Na revistinha do Saci Pererê, do Ziraldo, também tinha isso, crianças que iam pro brejo tentar pegar bicho do pé. Eu, menina da cidade, não fazia ideia do que se tratava, mas achava muito estranho alguém procurar coceira. Continuo achando. Na minha volta cautelosa à vida online, me vejo estranhando essas coisas. Sim, o ator-que-eu-nunca-ouvi-falar e a ex-VJ são imbecis. E daí? Será que é realmente necessário se escandalizar duas a três vezes ao dia? Continuo acreditando que denúncias são importantes, mas dar atenção a sub-sub-celebridades me parece só barulho.
Por isso, eu desconfio que o problema não é nosso isolamento. É o excesso de convivência com ideias não só diferentes, mas chocantes. É lembrar que nem mesmo aquele fino verniz de cultura, que nos impede de cair na selvageria mais completa, parece ter efeito nas redes sociais. E pior: a banalização do mal está bem do nosso lado, em nossos colegas, vizinhos, parentes. Se antes, nas festas de família, podíamos falar apenas sobre amenidades e não precisar descobrir quem ali é fascista – ou pelo menos, fingir que não sabíamos. Agora, está ali com todas as letras no Facebook. E para eles também, imagino, deve ser assombroso descobrir que seus queridos colegas e parentes podem ser (ou apoiar, o que dá no mesmo) maconheiros-de-esquerda e mulheres-que-fazem aborto.
Não é o meu caso. Eu realmente vivo na bolha. Eu sou freelancer e trabalho em casa, portanto não tenho colegas. Tenho conseguido fazer alguns trabalhos bacanas, em projetos com que tenho afinidade. Tenho uma grande identificação política e ideológica com a minha família. E tenho um círculo de amigos que pode discordar em diversas coisas, mas que concorda nos pontos principais. Talvez por isso, tenha demorado pra realmente cair a minha ficha sobre a polarização na internet. Afinal, quando estamos com gente do “nosso lado”, podemos nos dar ao luxo de acrescentar nuances e ponderar antes de falar. No combate é que essas coisas são deixadas de lado.
Não acredito que esse quadro vá mudar tão logo e não tenho nada a propor para melhorar isso (pelo menos, por enquanto). Tenho uma resolução para mim, apenas. Sei que essa sensação de estranhamento após o detox vai se esvaindo; já está acontecendo. Mas quero guardar um pouco dela, tentar lembrar disso quando sentir a comichão de entrar numa polêmica só por entrar ou responder a um troll. Ficar mais quieta e dar menos importância a discussões. Aprender que se o mundo viveu duas semanas sem as minhas opiniões, não precisa delas a todo momento.
Propaganda
Você conhece a história da palavra propaganda? Ela vem do latim e entrou nas línguas modernas por causa da Igreja Católica. No século 17, o papa Gregório XV criou a Congregatio de Propaganda Fide, a congregação para propagação da fé. Por isso, o primeiro significado de propaganda é de propagação de ideias ou crenças. Em inglês, a palavra nunca perdeu esse sentido e tem uma conotação pejorativa – muito por causa da Guerra Fria. Na União Soviética, foi criado um Departamento de Agitação e Propaganda, conhecido pela abreviação Agitprop. Em russo, propaganda é isso: disseminar ideias; naquele contexto, as ideias comunistas. Na língua inglesa e especialmente nos Estados Unidos, propaganda é ruim, porque é a divulgação de informações carregadas de propósito político, sem imparcialidade, manipuladas ou mesmo falsas. Dá pra ver um pouco das diferenças ideológicas no uso de uma palavra, né.
Eu fiquei pensando em tudo isso quando lia o post da Srta Bia sobre caso Hope/Gisele. A essa altura, nem sobrou muito pra falar sobre o quanto os comerciais da Hope são machistas – talvez falte perguntar por que as marcas de roupas íntimas sentem tanta necessidade de ofender as mulheres, já a concorrente Duloren chamou o Bolsonaro para os seus anúncios. Mas a Bia diz:
Publicidade não é uma bobagem. É um meio de comunicação que age socialmente reforçando o status quo e gerando novas demandas de consumo.
Publicidade é propaganda. Vender um produto é apenas parte do seu trabalho. Convencer, disseminar ideias e crenças também faz parte do pacote.
São Paulo, por quê?
É uma das coisas que quando criança parecem incompreensíveis: com tantas vias menores sendo chamadas de “avenida”, por que a Consolação, com suas duas pistas de quatro faixas, é apenas uma “rua”? O que eu conheço da Consolação é uma via expressa, voltada essencialmente aos carros, com calçadas irregulares e travessias para pedestres desumanas. Não que faça diferença, quem passa por lá está apenas a caminho de outro lugar, nem que seja o ponto de ônibus.
Era nisso que eu pensava quando lia as notícias sobre o fechamento do Cine Belas Artes. O cinema era conhecido por suas cadeiras desconfortáveis e por ter deixado em cartaz Medos Privados em Lugares Públicos por uns dez anos (tá, talvez menos). Mas seu fechamento era mais uma derrota da rua, que já havia perdido o Riviera, que se consolava em seu papel de lugar de passagem.
Na mesma época, eu e meu marido comemorávamos nossos três anos debaixo do mesmo teto. Você sabe o que isso quer dizer? Não falo de romantismo, mas das bodas de fim de contrato. A carta chegou anunciando um aumento de 80% no nosso aluguel. Tentei insuflar as pessoas por um abaixo-assinado para nos manter por um preço menor; mas nem para o cinema isso havia surtido efeito. A gente se contentou com um pequeno desconto.
Foi quando eu entendi melhor o que queria dizer denúncia vazia: no caso dos aluguéis residenciais, depois de 36 meses, o proprietário pode pedir o imóvel de volta sem justificativas. Quer dizer que ele pode aumentar o quanto quiser; você pode negociar, bater o pé e prender a respiração até ficar roxo. Mas no fim, se não aceitar a proposta, ele pode pedir, gentilmente através de um oficial de justiça, que você saia e pronto.
Existe um fenômeno chamado gentrificação. Ele acontece quando uma região é valorizada a ponto de expulsar seus moradores originais. No Brasil, normalmente a gentrificação é associada a projetos de “revitalização” bancados pelo poder público. Foi o caso do Pelourinho, em Salvador, e do Recife Antigo – parece ser o caso do projeto da prefeitura paulistana para a “Nova Luz”. Mas há muitos casos em que isso acontece pela força do mercado. E é muito comum que a valorização venha da ocupação do bairro por artistas, gays, intelectuais, pessoas que não se incomodam com uma vizinhança barulhenta e “insegura”. Sua presença faz aumentar o preço dos imóveis e os mesmos que fizeram os preços subir não conseguem mais bancar sua moradia ali (estou resumindo grosseiramente; urbanistas, por favor, me corrijam).
Meu marido perguntou: “para onde vamos quando não conseguirmos mais morar na região central?”. Não sei. O que eu sei é que não seremos os primeiros a sair. Um casarão antigo foi derrubado para dar lugar a um novo empreendimento imobiliário. Parece-me que era um cortiço. Não sei para onde foram seus moradores. Não os conhecia e espero que ninguém habite em condições insalubres. Porém acredito que a presença deles por aqui tornava o bairro melhor, mais vivo. O prédio onde era o Belas Artes continua fechado, abandonado. Mais um ponto morto na Consolação.
Quase todas as minhas concepções sobre urbanismo vêm do livro da Jane Jacobs, Vida e Morte das Grandes Cidades. Acho lindo como ela descreve a importância da lojinha de rua, dos prédios de diferentes idades, dos diferentes usos que cada um dá para a rua. Expulsar os pobres e depois os nem-tão-pobres-assim vai contra o que eu acredito que faz uma boa vizinhança. E São Paulo é muito cruel, e nunca nos deixa nos sentir tão bem vindos assim.
Lembrei disso esses dias porque duas amigas estão passando pelo mesmo processo e pelo mesmo dilema: contratos que vencem, aluguéis que sobem enormemente e a ideia de ir para outro lugar, dentro da cidade, onde morar caiba no orçamento. Esses lugares estão cada vez mais longe. Eu e meu marido volta e meia conversamos sobre mudar de cidade, de Estado, de país. São Paulo, I love you, but you’re bringing me down.
Viajando com as margaridas
A ida para Brasília na semana passada foi ótima, embora puxada. Fui num dos ônibus da Marcha Mundial de Mulheres para acompanhar a Marcha das Margaridas. É tudo muito: muita gente (umas 70 mil pessoas na Cidade das Margaridas), muito espaço (tinha deixado minha mochila num dos alojamentos; entre sair da sala de imprensa para pegar a mochila e voltar devo ter levado uns 15 minutos), muitas horas (de São Paulo são só 15, mas a moça do Maranhão me contou que levaram 36 horas), muitos problemas, muitas esperanças.
Sobre a Marcha das Margaridas, fiz dois textos pra Carta Maior:
» Os preparativos para a viagem das margaridas
» A reação aos anúncios do governo
Depois, na quinta fomos para a plenária da Frente Nacional contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto, que também rendeu textinho: Frente quer conter retrocesso.
Além disso, deu pra dar risada no bar com a Srta. Bia e “curtir” o tempo desértico. Fiz a genialidade de levar a máquina fotográfica sem bateria (e o notebook sem carregador) – então, sem fotos por aqui.
Vale a pena boicotar?
Eu estava viajando e envolvida em outras atividades, então acompanhei as reações ao episódio d’A Liga sobre trabalho escravo como quem ouve um burburinho persistente ao longe, mas com a desconfiança de que de perto o barulho está bem alto. A denúncia contra a Zara não foi a primeira a envolver uma loja de roupas; mas a primeira a colocar uma marca que não é exatamente popular na berlinda, com a reverberação que a tevê permite.
Uma das discussões recorrentes nesses casos é sobre a validade de campanhas de boicote às empresas que têm, em sua cadeia produtiva, trabalho escravo. A ideia de “consumo consciente” é bastante problemática, ao colocar nosso papel como cidadãos abaixo do papel de consumidores, com todas as desigualdades embutidas nisso. Outra questão é a efetividade do boicote. Será que um pequeno grupo, que provavelmente já nem era o público-alvo da loja, pode afetar o faturamento a ponto de ter impacto sobre as políticas da empresa?
Como o céu é do condor
Sexta e ontem estive no Sesc Pinheiros vendo o seminário Revoluções. Ontem, no meio da tarde, usei o celular para dar uma olhada no Twitter e comentei com a minha irmã: “três pessoas foram presas na Marcha da Maconha”. O Zizek falou sobre os mecanismos psíquicos que coletivamente usamos para escapar de lidar com as catástrofes do nosso tempo. Disse que a escolha entre liberalismo ou fundamentalismo é uma falsa questão; o primeiro alimenta o segundo. Disse que a nossa questão ainda é comunismo, pois se trata dos commons. E mais um monte de coisas que vocês podem encontrar por aí.
Saí do Sesc e fui para a Dissenso, ver o primeiro dia do #2 Dis Experimental. Peguei só metade da apresentação da Lidia, pela tevê do bar, já que a sala estava cheia. Gostei do que vi, dos poemas se transformando em música. Conheci a Julie, conversamos sobre as propostas de se fazer uma SlutWalk aqui e sobre a ambiguidade que experimentamos sobre o assunto. O Gustavo chegou com as notícias da repressão violenta à Marcha da Maconha e do gás lacrimogêneo. A noite foi se espichando com amigas, muitas conversas e muitas cervejas.
Só hoje de manhã vi os vídeos da Marcha da Maconha, li as matérias, incluindo o ótimo texto do Torturra. E também li sobre as manifestações na Espanha e vi a Tatiana perguntando no Google Reader quando começará aqui. Aí lembrei das praças em Madri, da arquitetura, das pessoas sentadas em rodas no chão, do movimento (fui antes de proibirem o botellón). E fiquei com uma pergunta na cabeça, que não era quando, mas onde. Eu muitas vezes passo pela Sé, mas nunca vou à Sé. Eu vou à Paulista, que também é onde acontecem manifestações, onde ontem os policiais agrediram cidadãos desarmados. Mas é uma avenida, não uma praça. A Prefeitura tem, permanentemente, grades de ferro para se proteger das manifestações. A sede do governo do Estado é vetada para manifestações. Acho que tudo isso quer dizer alguma coisa.
Sábado que vem vamos para a Paulista. E depois, onde nos encontramos?
Todos chora
Eu comecei a ver o vídeo da Mônica Waldvogel, mas não consegui chegar até o fim. Rolou uma vergonha alheia à Kirsten Dunst.
Afinal, eu conheço um pouquinho de lingüística pra saber que o escândalo feito ao redor do livro foi uma bobagem; e conheço um pouquinho de literatura pra imaginar que o Marcelino Freire e o Cristovão Tezza não comprariam a ideia do “falar errado”. Eu me interessei pelo caso, li alguns textos, mas nem estava preparando uma pauta para um programa de televisão sobre isso. Como pode ser, então, que a Mônica Waldvogel tenha se submetido a um papelão desse tipo?
A primeira coisa que passa pela cabeça é duvidar da competência dos profissionais envolvidos. Mas, num segundo momento, isso não foi capaz de me convencer. Primeiro porque sei que há muitos bons profissionais na GloboNews. E também por outro motivo. Claro que o trabalho em televisão exige uma série de competências e habilidades. Mas também é estruturado para dar certo mesmo que uma das peças falhe. Existe pesquisa, pauta, produção, fichas para o apresentador, etc.
Descartei essa hipótese e continuei encafifada. Daí me lembrei da época em que trabalhava na Prefeitura, no projeto Telecentros, e acompanhei a transição da gestão Marta para a gestão Serra. Os Telecentros foram pensados como um mecanismo de inclusão digital e social. Não se tratava apenas de fornecer computadores para quem não os tinha. Mas de levar o mundo digital – e de carona o Estado – para comunidades nas regiões de menor IDH da cidade. Não era um serviço, era um programa social.
Isso estava bem documentado e foi apresentado para a equipe de transição. Mas logo em seguida os Telecentros foram elencados dentro da categoria de “serviços” no site da Prefeitura. Não porque discordassem da visão ou quisessem mudar. Mas simplesmente porque não entendiam como assim.
Quando a gente entende o mundo de um jeito, é muito difícil encaixar outras perspectivas. Não é questão de inteligência, mas de ideologia. Acho que foi o caso da Mônica Waldvogel. Ela simplesmente não estava preparada para um mundo onde certo e errado não existem dessa forma. É como de repente explicar para quem vê o Sol nascer e se pôr todos os dias que é a Terra que se move. “Ah vá! Isso é tucanar o movimento, né não? Confessa”.
E no entanto…



