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Sobre o trabalho doméstico

02 abril 2013 by Bárbara Lopes

As discussões sobre a PEC do trabalho doméstico me fizeram lembrar do Mulheres do 6º Andar. O filme se passa na França, no começo dos anos 1960 e está um sufoco encontrar empregadas francesas. Então, as famílias apelam para imigrantes espanholas. Tem uma cena em que uma das empregadas, Teresa, chega anunciando para as amigas que vai se casar com o dono do salão de beleza. Todas, incluindo a própria Teresa, estão entusiasmadas com a notícia. Uma pergunta: “você vai se mudar?”. Ela responde que sim, que chega de ser empregada. Outra pergunta se ela vai trabalhar no salão. Ela conta que não no começo, que vai ficar em casa, lavando as blusas dos clientes, depois passando, limpando o chão… O entusiasmo vai embora.

Pensei nisso todas as vezes em que vi “trabalho doméstico” reduzido ao trabalho doméstico assalariado, como se o trabalho não pago deixasse de ser trabalho. A gente não reconhece que essas atividades são importantes, necessárias e demandam esforço (para além do amor incondicional que deveria ser a causa e recompensa desse trabalho) e, da mesma forma, não reconhece as profissionais que fazem esse serviço como merecedoras dos mesmos direitos trabalhistas.

Foi sobre isso, sobre a PEC, as reações e o trabalho doméstico que eu e a Bia escrevemos lá no Blogueiras Feministas. Antes, eu tinha feito parceria com a Lu para problematizar a campanha do Banco Mundial do “homem de verdade” – porque feminista é tão chata que reclama até de contra a violência contra a mulher só porque é mei machista – e juntado uns pensamentos sobre mulheres e chocolate.

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Racismo e a louça da vovó

21 março 2013 by Bárbara Lopes

Eu fiquei pensando se escrevia alguma coisa pelo Dia Internacional de Eliminação da Discriminação Racial. Li os posts da Iara, da Lu e da Bia e não sobrou muito a dizer. Mas vou tentar mesmo assim.

Eu entendo quem diz “mas eu tenho um amigo/avó/bisavô negro” ao ser criticado por ter cometido algum ato racista. Claro que em alguns casos, deve ser mentira. Mas deve haver uma porção de casos em que essa perplexidade é verdadeira. Isso porque embora reconheçamos que existe racismo no Brasil, a gente acaba acreditando que racismo é não gostar das pessoas por causa da cor da pele delas. E se eu gosto de uma pessoa com cor de pele diferente, isso mostra que meu problema não é com a pele, certo? Usei “cor da pele”, sem especificar, porque da mesma forma, tem gente que fala em “racismo ao contrário”. Quer dizer, existem pessoas brancas que sentem que pessoas negras não gostam delas por causa da cor. Se essa é a definição de racismo, então isso seria racismo, não?

Só que racismo não é isso. Racismo é um sistema, é parte do sistema que organiza nossas relações sociais, econômicas e políticas e faz isso mantendo em posição inferior, subalterna, uma grande fatia da população. Racismo é também o processo histórico que explica e justifica essa posição. Racismo não é simplesmente uma cultura que herdamos com a louça da vovó, sem uso, mas mantida por tradição. Racismo é a ideologia que mantém negros e negras como mão de obra mais barata, como a carne mais barata do mercado, como as vidas mais descartáveis.

Estou lendo Calibán y la bruja, da Silvia Federici, e pretendo escrever mais sobre ele. Por enquanto, quero deixar um trechinho da introdução em que ela fala sobre o vínculo do capitalismo com racismo e sexismo:

O capitalismo deve justificar e mistificar as contradições incrustadas em suas relações sociais – a promessa de liberdade frente à realidade de coação generalizada e a promessa de prosperidade frente à realidade de penúria generalizada – depreciando a “natureza” daqueles a quem explora: mulheres, súditos coloniais, descendentes de escravos africanos, imigrantes deslocados pela globalização.

***

A Guatemala está julgando o general Efrain Ríos Montt por genocídio. Ele foi ditador no país entre 1982 e 1983. Nesse curto período, a Guatemala viveu um dos períodos mais sangrentos de sua história. Para esmagar grupos guerrilheiros de esquerda, apoiados por indígenas, os militares invadiram aldeias, matando, estuprando e torturando, queimando plantações e matando os animais. Quem conseguiu fugir, para as montanhas, sofreu com a fome, frio, doenças e bombardeios aéreos. Entre 70% e 90% das aldeias Ixil (um dos povos maias da Guatemala) foram atacadas entre 1981 e 1983. Ao longo de todo o período da “guerra civil” (quando o governo massacrava a população) morreram 200 mil pessoas. Não precisaria nem dizer que isso tudo com apoio dos Estados Unidos, mas digo mesmo assim. Documentos do Arquivo de Segurança Nacional americano mostram que o governo Reagan foi informado do que estava acontecendo, embora declarasse publicamente que as condições dos direitos humanos na Guatemala estavam melhorando.

O diretor da Fundação de Antropologia Forense da Guatemala (eles exumaram muitos corpos e, embora não tenham conseguido identificar a maioria, puderam provar que os mortos não eram guerrilheiros) definiu assim: “Isso é o terror. É uma estratégia para se certificar que todos e qualquer um que se oponham a você tenham medo; não só agora, tenham medo de você para sempre”.

Levar um ditador a julgamento não apaga o terror perpetuado, mas talvez ajude os sobreviventes a superar o medo. Mas espero, principalmente, que seja um sinal de que essas vidas – ao menos se contadas na casa de dezenas de milhares – não são tão descartáveis assim.

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O ambientalismo da Marina

19 fevereiro 2013 by Bárbara Lopes

Tem uma parte do fenômeno Marina Silva que é bem interessante. Muitas pessoas a criticam por suas posições em relação ao ensino do criacionismo, ao casamento igualitário, às drogas e ao aborto. Mas fazem a ressalva sobre admirarem sua história de vida e sua postura como ambientalista.

Eu obviamente entendo o argumento. A história de vida dela é muito bonita e tem valor que alguém com seu prestígio vocalize as críticas ao Código Ruralista, a Belo Monte, etc. São causas que, embora sensibilizem boa parte da população, são atropeladas pelo poder econômico.

Mas colocar a questão dessa forma (“Marina faz boa política para a natureza e má política para o resto”) acaba sendo uma forma de separar a natureza do resto, o que é bem ruim para o debate ambiental. Acaba que podemos ver o ambiente como algo mais importante ou menos, mas algo fora de nós, fora da sociedade, fora da política.

Acho que se formos resumir a posição da Marina sobre a natureza, seria: ela é a favor. O problema é que ela não aprofunda isso para chegar na raiz dos problemas. Não identifica as estruturas e poderes que empurram os códigos e belos montes. Do que ela defende, sei das energias alternativas, do desenvolvimento tecnológico e da tal sustentabilidade. Nas entrevistas que eu li, ela fala bastante em desenvolvimento sustentável – que em geral, é usado significando o mesmo modelo de desenvolvimento que a gente hoje, mas preservando a natureza. Como nunca vi a Marina definindo de outra forma esse termo, acredito que é assim que ela o usa.

Da mesma forma, ela se recusa a criticar a economia verde, ou seja, o discurso de que os mecanismos de mercado são capazes de resolver a crise ambiental. Essa vem sendo a agenda dos organismos internacionais, como a ONU, com apoio de bancos e grandes empresas. Foi o tema da Rio +20, que foi patrocinada, entre outros pela Vale (que ganhou o concurso de pior empresa do mundo no ano passado) e pela Natura (pois é).

Para diversos movimentos sociais, o que está por trás da crise ambiental é o capitalismo, especialmente em sua face neoliberal. O capitalismo é insustentável e depende da apropriação privada da natureza e do trabalho das pessoas. Se essa não é resposta da Marina, então qual é? É: uma questão moral. Não do modelo econômico, do poder das empresas em derrubar regulamentações, do sistema político que gera esse poder. Mas de empresas bacanas ou não, de pessoas boas ou más. De valores. “Pessoas virtuosas criam instituições virtuosas”. Não é tão distante de sua visão sobre outros temas.

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O que é ruim, a gente esconde

31 janeiro 2013 by Bárbara Lopes

Com a mudança, as pilhas físicas e virtuais de coisas para ler e a minha indisciplina para leitura nos últimos tempos, não devia estar pensando em comprar livros. Mas estou me coçando por um que nem saiu ainda. É o “Bad Pharma: How Drug Companies Mislead Doctors and Harm Patients”,  de Ben Goldacre. O livro promete uma investigação a fundo da indústria farmacêutica – uma das gangues que controlam os Estados Unidos segundo o Jeffrey Sachs.

O assunto ganha ainda mais interesse por causa da notícia das mortes associadas à pílula Diane 35 e do rico debate que o tema suscitou na lista das Blogueiras Feministas, basicamente em torno da pergunta: se o uso de hormônios para evitar a gravidez tem tantos riscos, por que é tão difícil uma alternativa de fato acessível, segura, confiável e, de preferência, compartilhada entre homens e mulheres?

O trecho do Bad Pharma que saiu na Salon traz elementos para pensar nisso. Mas tem mais: a gente anda um pouco para o lado e consegue ver um pedaço do cenário que antes estava oculto. O autor fala sobre o viés de publicação na área farmacêutica: os testes bancados pelo fabricante são muitíssimo mais prováveis de ter resultados favoráveis que os testes bancados por outras instituições. Claro que é possível influenciar os resultados, na escolha dos pacientes, nas dosagens, etc. Mas o principal é que, se a empresa está pagando testes e eles não dão o resultado esperado, os resultados são jogados fora. A questão não é que isso seja um choque. É justamente não ser.

Eu comecei a ler e logo “adivinhei” que era isso. É óbvio, até. Estamos acostumados com isso e até ministro falando “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde” já tivemos. Todos nos ensinam a ressaltar nossas qualidades e esconder nossas imperfeições, a disfarçar os probleminhas, virar a almofada que mancha. E não tem nada intrinsecamente errado nisso, mas tem um risco. Ruim mesmo é aprender que somos medidos pelos resultados que alcançamos.

O que me impressionou na leitura não é que resultados negativos fiquem sem publicação, mas o impacto que isso pode ter. No contexto de quem fabrica substâncias para pessoas que realmente precisam (ainda que essa necessidade tenha sido criada pela própria indústria) torna qualquer pequena omissão criminosa. Se nós permitimos que empresas particulares ganhem dinheiro com a saúde e a doença das pessoas, essas empresas deveriam prestar contas de forma absolutamente transparente, como se espera dos governos.

Aqui tem o trecho do livro que saiu na Salon: http://www.salon.com/2013/01/27/bad_pharma_drug_research_riddled_with_half_truths_omissions_lies/. E, abaixo, um trecho do trecho que eu traduzi.

Reboxetine é um remédio que eu mesmo prescrevi. Outros remédios não tinham tido efeito nesse paciente específico, então eu quis tentar algo novo. Eu li os dados de teste antes de escrever a receita e encontrei apenas testes bem desenhados, corretos e com resultados esmagadoramente positivos. Reboxetine era melhor que placebo e tão bom quanto qualquer outro anti-depressivo. Foi aprovado para o uso pela agência reguladora do Reino Unido. Milhões de doses são prescritas todo ano pelo mundo. Reboxetine era claramente um tratamento seguro e efetivo. O paciente e eu o discutimos brevemente e concordamos que era o tratamento certo para tentar a seguir. Eu assinei uma receita dizendo que queria que meu paciente tivesse esse remédio.

Mas fomos ambos enganados. Em outubro de 2010, um grupo de pesquisadores finalmente conseguiu juntar todos os testes já feitos com o Reboxetine. Por um longo processo de investigação – fazendo buscas em revistas científicas, mas também requerendo arduamente os dados de fabricantes e recolhendo informações dos órgãos de regulação – eles reuniram todos os dados, tanto os testes publicados como aqueles que nunca apareceram em artigos científicos.

Quando todos esses dados foram colocados juntos, produziram um quadro chocante. Sete testes foram feitos comparando o Reboxetine com placebo. Apenas um, conduzido em 254 pacientes, teve um nítido resultado positivo e esse foi o publicado em uma revista acadêmica para médicos e pesquisadores lerem. Mas outros seis testes foram feitos com um número de pacientes quase 10 vezes maior. Todos mostraram que Reboxetine não era melhor que uma pílula de açúcar. Nenhum desses testes foi publicado. Eu não fazia ideia que eles existiam.

Fica pior. Os testes comparando Reboxetine com outras substâncias mostram exatamente o mesmo: três pequenos testes, com 507 pacientes no total, mostraram que o Reboxetine era tão bom quanto os outros. Eles foram publicados. Mas os dados de 1657 pacientes ficou sem publicação, e esses dados mostram que pacientes tomando Reboxetine foram pior que os pacientes tomando outras substâncias. Se isso não fosse ruim o bastante, também havia os dados sobre efeitos colaterais. O remédio ia bem nos testes que apareceram na literatura científica. Mas vendo os estudos não publicados, descobria-se que os pacientes tomando Reboxetine tinham mais efeitos colaterais, eram mais propensos a parar de tomar os remédios e a abandonar o teste devido aos efeitos colaterais que pacientes tomando outros remédios.

Eu fiz tudo que um médico deveria fazer. Eu li todos os artigos, os avaliei criticamente, os entendi e os discuti com meu paciente. Nós tomamos uma decisão juntos, baseados na evidência. Nos dados publicados, o Reboxetine era um remédio seguro e efetivo. Na realidade, não era melhor que uma pílula de açúcar e, pior, fazia mais mal que bem. Como médico, fiz algo que, no balanço das evidências, prejudicou meu paciente, simplesmente porque os dados desfavoráveis não foram publicados.

Se você acha isso impressionante ou revoltante, sua jornada está só começando. Como ninguém quebrou nenhuma lei nessa situação, o Reboxetine ainda está no mercado e o sistema que permitiu que isso acontecesse continua funcionando, para todos os remédios em todos os países do mundo. Dados negativos desaparecem, para todos os tratamentos, em todas as áreas da ciência. Os órgãos reguladores e associações profissionais com que contávamos para acabar com isso falharam conosco.

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Mulheres e democracia

13 novembro 2012 by Bárbara Lopes

Em março, quando se completaram 80 anos do direito das mulheres ao voto, eu dei uma entrevista para um jornal chamado Mundo. Não vi como ficou a matéria, mas acho que deu para fazer uma reflexão legal sobre mulheres e democracia, então coloco as respostas aqui.

1) Quais são hoje, os maiores entraves para participação política das mulheres no Brasil?

Em primeiro lugar, está a divisão sexual do trabalho, ou seja, a ideia de que cabe aos homens prover o sustento da casa com o trabalho produtivo e às mulheres cuidar da casa e dos filhos. Na prática, a mulher está no mercado de trabalho (com salários menores) e acumula isso com o trabalho doméstico. Com isso, o tempo das mulheres é mais escasso. Por exemplo, pode ser complicado para uma mulher ir a uma reunião política à noite porque ela precisa servir o jantar dos filhos. Além disso, essa ideia da divisão dos papéis faz com que o mundo público seja visto como espaço masculino e a vida privada, espaço feminino. Há aí um entrave cultural forte.

Apesar disso, as mulheres participam muito da vida política, afinal devido a essa desigualdade são as mulheres que sentem com mais força os impactos de problemas sociais. Em espaços como conselhos gestores dos equipamentos públicos, no movimento de moradia e nos movimentos camponeses há uma forte presença feminina. Historicamente, as mulheres estiveram na vanguarda do movimento pela anistia durante a ditadura militar e nos movimentos de bairro que surgiram nesse período, como o movimento de luta por creches.

O problema da participação política das mulheres está nos cargos públicos no executivo e legislativo nas três esferas. Então, o quadro que a gente tem mostra que as mulheres estão participando da política, mas não conseguem chegar aos cargos mais disputados. Isso é similar ao que acontece no mercado de trabalho, em que há um afunilamento da presença de mulheres conforme se sobre na hierarquia (o chamado teto de vidro). No caso da representatividade, os impasses estão na estrutura dos partidos, já que a maioria não respeita a lei que estabelece um mínimo de 30% de candidaturas femininas. Os partidos querem ganhar e acabam apostando menos em novas figuras que não se sabe como se sairão na campanha. Acaba virando um círculo vicioso: é preciso ter poder para ter poder.

Por fim, entra o aspecto cultural que mencionei acima. Quando uma mulher consegue vencer as barreiras e sair candidata, enfrenta um tipo de crítica e ataque que só se dirige às mulheres: sobre sua aparência, sua vida privada, sua capacidade como mãe. Se é gentil, é tratada como sendo muito frágil para o cargo; se é firme, é acusada de ser durona e pouco feminina.

2) O governo Dilma vem trazendo avanços para que as mulheres possam participar mais da vida política?

A eleição de uma mulher para a presidência da República tem um peso simbólico muito grande. Principalmente sendo uma mulher que muitas vezes levantou e levanta temas importantes para o movimento de mulheres, que questiona o machismo (por exemplo, ao dizer “sou uma mulher forte cercada por homens meigos”). Além disso, Dilma mostrou uma preocupação em aumentar o número de mulheres em cargos de primeiro escalão, o que também é um avanço. Do ponto de vista das políticas, o governo Dilma vem dando continuidade a programas que são muito importantes para autonomia das mulheres, que é importante para a participação na vida política. A própria criação e manutenção de uma Secretaria de Políticas para Mulheres com status de ministério; a política de conferências (não só de mulheres, mas outras em que há presença feminina como saúde, juventude e lgbt); o Pronaf Mulher e a titulação conjunta da terra, dedicado às mulheres do campo; o funcionamento do Bolsa Família, em que o benefício é entregue à mulher, são exemplos disso. Por outro lado, há muitas críticas dentro do movimento de mulheres a projetos e posicionamento do governo em relação a saúde e à manutenção de uma visão da mulher como mãe, reforçando o papel da mulher na esfera doméstica.

Diretamente relacionado à participação política, a expectativa é em relação à reforma política, que depende do Legislativo. Vai ter uma votação nesta quarta no Senado, mas não inclui as propostas de voto em lista fechada e cota para mulheres. O andamento da reforma política está lento e há pouca expectativa que o conjunto de propostas seja votado este ano.

3) Como o voto feminino contribuiu para emancipação das mulheres?

Existe uma frase que sempre repetimos: “o feminismo é a ideia radical de que mulheres também são gente”. Outro dia, encontrei um livro de poemas de uma sufragista americana chamada Alice Duer Miller, com um poeminha que brinca com isso. Se é o povo que elege os governantes, as mulheres não são povo (people, em inglês)*? Acho que o primeiro ponto é esse. O fato de mulheres não poderem votar era uma declaração explícita de que nós éramos vistas como cidadãs de segunda classe (ou não-cidadãs e ponto). Essa mesma visão se repetia em diversas leis – por exemplo, até 1962 a mulher precisava de autorização do marido para trabalhar. Essa foi a primeira fase do feminismo, a luta por uma igualdade pelo menos no papel. Só estar no papel não resolve todas as questões, mas é um passo fundamental.

Depois da conquista do voto feminino, tanto homens como mulheres ficaram cerca de 30 anos sem poder votar (pelo menos para presidente da República). Mas na redemocratização após a ditadura militar, o movimento de mulheres estava bastante ativo e articulado e teve um papel fundamental na Constituinte de 1988, que afirma a igualdade entre homens e mulheres em diversas questões, como a previdenciária. Mesmo sendo minoria nos cargos eletivos, a presença das mulheres no eleitorado é uma força para pressionar governantes e legisladores por políticas para as mulheres. A processo de emancipação feminina é um longo caminho, feito de avanços e alguns retrocessos, que ainda não está concluído. Mas cada conquista é um passo nesse caminho e ajuda a gerar novas conquistas.

*Father, what is a Legislature?
A representative body elected by the people of the state.
Are women people?
No, my son, criminals, lunatics and women are not people.
Do legislators legislate for nothing?
Oh, no; they are paid a salary.
By whom?
By the people.
Are women people?
Of course, my son, just as much as men are.

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Por que vou votar 13321 no domingo

05 outubro 2012 by Bárbara Lopes

Eu sumi do blog, mas tô bem ali no Facebook e no Twitter enchendo o saco dos amigos falando de política e eleições. Sempre falei, vou continuar a falar, mas isso se intensificou no último período.

Isso aconteceu porque quanto mais eu me envolvia, mais me encantavam as possibilidades que tem essa cidade. E mais me indignava o que ela não é. Trabalhar na campanha do Gabriel Medina a vereador me deu a oportunidade para reflexão, diálogo e ação em São Paulo. Dos incêndios em favelas à defesa da diversidade, do genocídio da juventude negra à reocupação do espaço público, do custo-voto a novas formas de participação popular: a gente ouviu, debateu, divulgou. E tudo com alegria, risada e música, porque isso também é política.

Se você é de São Paulo e ainda está em dúvida sobre o voto para vereador, dá uma fuçada no site, na página do Facebook, manda mensagem. E logo mais voltamos à programação normal :)

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Como não engravidar

15 março 2012 by Bárbara Lopes

Estamos, mais uma vez, sentindo os reflexos da ofensiva conservadora. Agora vindos da Polícia Federal. A PF lançou a operação Pró Vita (repara bem no nome), que prendeu profissionais de saúde e pessoas envolvidas com a comercialização de remédios proibidos. Cerca de 30 mulheres foram levadas para prestar depoimento – as que colaborarem terão direito à delação premiada, reduzindo suas penas.

Quando a gente discute aborto (nos comentários do blog), é quase invariável a linha que se segue. Nós começamos falando que nenhuma mulher deveria ser obrigada a levar adiante uma gravidez não-desejada. A resposta é que, se não quisesse engravidar, a mulher deveria se prevenir. Após mencionarmos que, sim, somos a favor de ampliar o acesso a métodos contraceptivos (algo que enfrenta a oposição da Igreja Católica e outros setores conservadores), lembramos que não existe método infalível. Camisinhas estouram ou escorregam, pílulas podem não ser absorvidas corretamente pelo organismo, etc. Aí chegamos ao ponto central: a resposta a isso é “então, que não façam sexo!”.

Dificilmente esse discurso chega logo de cara, mas basta trocar algumas palavras para se revelar que o principal motivo para a interdição do aborto é regular a sexualidade da mulher.

Nos Estados Unidos, onde a onda conservadora é, se possível, ainda mais maluca, o alvo são as mulheres que usam contraceptivos e desejam que o plano de saúde corporativo cubra esse custo. Afinal, se uma mulher quer tomar pílula, deve ser porque ela quer fazer sexo, e, se quer fazer sexo, é uma vagabunda. Esses dias, comentando o caso, o humorista Stephen Colbert disse uma frase genial:

Além disso, se você não quer engravidar, só existe uma maneira garantida: seja um homem.

A gente sempre lembra que se homem engravidasse, o aborto seria legal e disponível em qualquer farmácia – como brinca o vídeo das Católicas pelo Direito de Decidir.

E já que estamos no assunto, saíram os resultados de uma pesquisa feita pela UnB com o perfil das mulheres que já fizeram aborto. A ampla maioria têm filhos, têm religião e são casadas. Estima-se que 5 milhões de mulheres já fizeram aborto no Brasil. 5 milhões. Acho que a Polícia Federal vai ter trabalho.

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Duas ou três coisas sobre a luta contra a ditadura

14 março 2012 by Bárbara Lopes

As Blogueiras Feministas se juntaram a outras entidades do movimento de mulheres apoiando a moção pela Comissão da Verdade. Escrevi umas linhas por lá e já tinha falado sobre o tema anteriormente.

Tem dois argumentos que aparecem com frequência quando falamos da resistência armada à ditadura militar brasileira. O primeiro é “mas eles queriam implantar uma ditadura comunista no Brasil!”; o outro: “era loucura, impossível aqueles jovens conseguirem tomar o poder”. Queria falar um pouco de cada um.

“Mas eles queriam implantar uma ditadura comunista no Brasil!”

Em primeiro lugar, eles é muita gente. Havia uma série de grupos guerrilheiros na época. Muitos saíram do Partidão, como era conhecido o Partido Comunista, cuja direção havia decidido que a luta armada não era o caminho naquele momento. Dentre os grupos, havia mais proximidade entre alguns e divergências com outros – tanto em relação a tática de guerrilha, como em relação a estratégia, ao que fazer quando se tomasse o poder. Para afirmar o que “eles” queriam, é preciso analisar seus documentos. O grupo que eu conheço melhor, por leituras e entrevistas com ex-membros, é a ALN – Ação Libertadora Nacional. Como o nome já indica, o grupo defendia que o momento era de uma guerra de libertação nacional, já que a ditadura havia sido instalada pelo imperialismo americano no Brasil. O projeto de Marighella previa uma revolução nacionalista, que incluía até uma aliança com a burguesia nacional, como etapa para o socialismo.

“Era loucura, eles não tinham a menor chance”

Um grande erro é a gente olhar a história de trás pra frente e achar que ela era igual olhando de frente pra trás. As coisas parecem óbvias apenas depois que acontecem, mas a história está sempre em aberto. Por isso, gosto muito do Homem do Castelo Alto, do Philip K.Dick. A trama do livro se passa em um mundo em que o Eixo ganhou a Segunda Guerra. Ali, começa a circular um livro que conta o que teria acontecido se os Aliados tivessem ganhado a guerra. Uma hora, um personagem diz: “mas como?! era impossível para os Aliados ganharem a guerra!” (o mais interessante é que o cenário do livro dentro do livro é bem diferente do que aconteceu de verdade). Mas voltando ao assunto: não é apenas uma questão filosófica. O contexto da época era de diversos levantes na América Latina, alguns bem sucedidos. O combate entre uma guerrilha e um exército nunca é medido de forma direta pela quantidade de força. As vitórias conquistadas se dão de outra forma. Em 1959, houve a Revolução Cubana, que de frente parecia igualmente improvável. Em 1979, haveria a vitória dos sandinistas na Nicarágua. A vitória em Cuba foi importante não apenas para trazer esperanças, mas para, de modo prático, contribuir com treinamento e armas.

Outro argumento que aparece por aí é houve tiros dos dois lados. As diferenças são gritantes, mas cabe repetir. De um lado, tínhamos agentes utilizando o aparato do Estado para perseguir seus cidadãos, usando institucionalmente a crueldade. Chamar o outro lado de terrorista é uma tática baixa, pois quem promoveu o terror foram os agentes do Estado – com a participação de civis, como empresários e autoridades religiosas.

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Contra a violência

25 novembro 2011 by Bárbara Lopes

Como hoje é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, resolvi publicar as fotos de alguns dos cartazes expostos na Casa del Alba, em Cuba. Os autores dos cartazes são homens, parte da campanha Atrévete a ser hombre: el machismo mata, da Red Iberoamericana de Masculinidades (RIM). A casa também abriga o projeto Todas contracorriente, coordenado pela cantora Rochy Ameneiro, que busca trabalhar questões de gênero e estimular o protagonismo feminino através da música.

 

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