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Vale a pena boicotar?

19 agosto 2011 by Bárbara Lopes

Eu estava viajando e envolvida em outras atividades, então acompanhei as reações ao episódio d’A Liga sobre trabalho escravo como quem ouve um burburinho persistente ao longe, mas com a desconfiança de que de perto o barulho está bem alto. A denúncia contra a Zara não foi a primeira a envolver uma loja de roupas; mas a primeira a colocar uma marca que não é exatamente popular na berlinda, com a reverberação que a tevê permite.

Uma das discussões recorrentes nesses casos é sobre a validade de campanhas de boicote às empresas que têm, em sua cadeia produtiva, trabalho escravo. A ideia de “consumo consciente” é bastante problemática, ao colocar nosso papel como cidadãos abaixo do papel de consumidores, com todas as desigualdades embutidas nisso. Outra questão é a efetividade do boicote. Será que um pequeno grupo, que provavelmente já nem era o público-alvo da loja, pode afetar o faturamento a ponto de ter impacto sobre as políticas da empresa?

Mas olhar apenas por esse viés é uma leitura incompleta. Acho muito importante ter uma reação e mesmo campanhas de boicote quando há uma denúncia desse calibre. Não porque um grupo pequeno vá causar um prejuízo tão grande à Zara que vá tirá-la do mercado. Mas porque, por trás do uso do trabalho escravo, está o sistema de esvaziamento das corporações. Esse processo foi descrito pela Naomi Klein no No Logo: as empresas pararam de vender coisas para vender “ideias”, “conceitos”. A Zara é uma marca, mas não é uma indústria têxtil. Quando o marketing se tornou o principal departamento das corporações, elas terceirizaram as outras atividades. E como há sempre a busca por fornecedores mais baratos, o sistema de produção foi se tornando mais degradado. O caso emblemático dos anos 1990 foi a Nike.
Sobre a loucura do sistema financeiro: outro dia, o marido estava me mostrando uma lista das empresas mais valiosas do mundo. A Petrobras é quinta, embora tenha mais ativos, mais faturamento e dê mais lucro que a Apple, que está em segundo. Porque a gente também fala de ações negociadas em bolsas de valores, etc. Porque o mercado financeiro não é linearmente atrelado à economia física – eu dizer “economia real”, mas por que o mundo de investimentos, produtos financeiros, títulos e ações é menos real? Quando ele quebra, a gente sente aqui na realidade mesmo.
Por isso que as campanhas contra a Zara nesse momento são importantes. Porque ferem exatamente a marca, a imagem, a reputação. Desvalorizam essa imagem. Com o sistema financeiro do jeito que funciona hoje, só esse prejuízo causado pela percepção das pessoas já tem impacto. Se o boicote  pode não causar prejuízos “reais”, há pelo menos a chance de gerar prejuízos “imaginários”. O que pode não resolver tudo, mas pelo menos cria uma preocupações com novas crises.
Outra coisa é que, embora eu seja contra a ideia consumista de votar com o bolso, também acho que não preciso financiar esse tipo de criminoso. Pelo menos os que vêm sendo expostos. Porque se nem a exposição de um crime afeta a empresa, vão haver cada vez menos denúncias, né? Pelo menos isso ajuda a trazer à luz alguns casos.
* Parte desse texto foram reflexões que surgiram numa conversa na lista das Blogueiras Feministas. Depois, a Natalia Mendes mandou o link de uma matéria falando sobre a queda no valor das ações da empresa dona da marca Zara.
** A denúncia contra a Zara veio à tona com o trabalho de dois amigos: Pedro Ekman, que dirigiu esse episódio d’A Liga, e Leo Sakamoto, da Repórter Brasil, que há muitos anos investiga trabalho escravo.

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