babilopes

na babilônia

Tag Archives for: polarização

Muito barulho por nada

24 novembro 2011 by Bárbara Lopes

Agora em novembro, passamos 11 dias em Cuba. Eu já antecipava que seriam dias majoritariamente offline e até lembrei de anotar num papel alguns endereços e telefones que não poderia recuperar pela internet. A internet em Cuba é precária. Para os cubanos, é necessária uma senha, fornecida pelo governo, e a navegação é filtrada – um médico com quem conversamos, por exemplo, tem acesso apenas ao portal de saúde Infomed. Para os turistas, há pontos de acesso em hotéis e lojas de telefonia. Cubanos podem tentar, mas pode ser solicitado o passaporte. Além disso, o cartão custa 12 dólares para uma hora, o que já é muito dinheiro para mim – para quem ganha salários de 30 a 50 dólares, então. Por outro lado, um cabo de fibra ótica está sendo puxado da Venezuela, há muitos jovens estudando informática e as escolas de comunicação já incluem cursos sobre jornalismo digital. Sinais de que mudanças estão próximas.

O fato é que eu usei, ao todo, uma hora e meia de internet em todos esses dias. O que para o meu padrão é uma ninharia. Eu costumo ficar online praticamente todo o tempo que estou acordada. Mesmo que não esteja usando o computador ou o celular, sei que eles estão ali, à disposição. Mesmo tarefas offline mais longas – como cuidar da casa – são temperadas com uma espiada no email ou nas notícias. Ou seja, em poucos dias eu já experimentava crises de abstinência. Mesmo tentando antecipar como seria a vida desconectada, a falta do recurso fácil às buscas, mapas e agendas me deixou desorientada.

Pois bem. Isso era previsível. Assim como a gente não lembra como resolvia as coisas antes da internet, não imaginamos muito como resolveríamos sem ela. O que me espantou foi a volta. Se foi difícil ficar longe, a volta foi dolorosa. Minha sensação era de alguém saindo de uma sessão de meditação e entrando em uma sala em que todos berram. Os primeiros amigos que encontrei após a volta também repetiram uma mesma frase: “você teve sorte de estar longe durante os acontecimentos na USP”. Ouvi mais de um caso sobre crises familiares provocadas por comentários nas redes sociais. Sim, eu sei que o silêncio que eu tive a oportunidade de ouvir se deve a uma restrição autoritária e nada desejável. Mas o barulho também é uma forma de calar vozes, de impor um “ganha quem falar mais alto”.

Eu relutei a admitir a tese de que a internet está aprofundando as tensões e aumentando a polarização nos debates. E não acho que seja só isso. O recrudescimento do fanatismo religioso, por exemplo, tem características semelhantes, mas acho difícil associá-lo à vida digital. Mas, sim, a internet é um espaço propício para radicalismos (mesmo que eu não considere o termo “radical” necessariamente ruim). Vemos que mesmo discussões que não são do campo estrito da política logo ganham dimensões de combate de vida ou morte.

Os autores que se dedicam a essa crítica culpam a facilidade que existe na internet para encontrar pessoas que pensam de forma parecida. Ao conversar apenas com nossos iguais, aprofundaríamos nossos pontos-de-vista e, ao perder o contato com as discordâncias, desaprenderíamos a debater de forma saudável. Essa é uma das premissas do Filter Bubble, de Eli Pariser, por exemplo. O autor mostra como sites como Google e Facebook se adaptam aos nosso gostos e passam a mostrar apenas aquilo que eles acham nos interessa. Ele diz que “Em uma era em que a informação compartilhada é o alicerce da experiência compartilhada, o filtro-bolha [como traduziu o professor André Lemos] é uma força centrífuga, nos separando uns dos outros”.

O livro traz dados reflexões excelentes e, mesmo essa, é muito importante. Mas eu acrescentaria que somada à força centrífuga, entra em ação uma força centrípeta, que nos atrai para o centro das polêmicas, que leva pessoas até então razoáveis e sensatas a ler os comentários nas notícias da Folha Online.

Quando eu era criança, ficava intrigada com a música do Vinicius: “e o bicho do pé / Que gostoso que ele é / Quando dá coceira / Coça que não é brincadeira”. Na revistinha do Saci Pererê, do Ziraldo, também tinha isso, crianças que iam pro brejo tentar pegar bicho do pé. Eu, menina da cidade, não fazia ideia do que se tratava, mas achava muito estranho alguém procurar coceira. Continuo achando. Na minha volta cautelosa à vida online, me vejo estranhando essas coisas. Sim, o ator-que-eu-nunca-ouvi-falar e a ex-VJ são imbecis. E daí? Será que é realmente necessário se escandalizar duas a três vezes ao dia? Continuo acreditando que denúncias são importantes, mas dar atenção a sub-sub-celebridades me parece só barulho.

Por isso, eu desconfio que o problema não é nosso isolamento. É o excesso de convivência com ideias não só diferentes, mas chocantes. É lembrar que nem mesmo aquele fino verniz de cultura, que nos impede de cair na selvageria mais completa, parece ter efeito nas redes sociais. E pior: a banalização do mal está bem do nosso lado, em nossos colegas, vizinhos, parentes. Se antes, nas festas de família, podíamos falar apenas sobre amenidades e não precisar descobrir quem ali é fascista – ou pelo menos, fingir que não sabíamos. Agora, está ali com todas as letras no Facebook. E para eles também, imagino, deve ser assombroso descobrir que seus queridos colegas e parentes podem ser (ou apoiar, o que dá no mesmo) maconheiros-de-esquerda e mulheres-que-fazem aborto.

Não é o meu caso. Eu realmente vivo na bolha. Eu sou freelancer e trabalho em casa, portanto não tenho colegas. Tenho conseguido fazer alguns trabalhos bacanas, em projetos com que tenho afinidade. Tenho uma grande identificação política e ideológica com a minha família. E tenho um círculo de amigos que pode discordar em diversas coisas, mas que concorda nos pontos principais. Talvez por isso, tenha demorado pra realmente cair a minha ficha sobre a polarização na internet. Afinal, quando estamos com gente do “nosso lado”, podemos nos dar ao luxo de acrescentar nuances e ponderar antes de falar. No combate é que essas coisas são deixadas de lado.

Não acredito que esse quadro vá mudar tão logo e não tenho nada a propor para melhorar isso (pelo menos, por enquanto). Tenho uma resolução para mim, apenas. Sei que essa sensação de estranhamento após o detox vai se esvaindo; já está acontecendo. Mas quero guardar um pouco dela, tentar lembrar disso quando sentir a comichão de entrar numa polêmica só por entrar ou responder a um troll. Ficar mais quieta e dar menos importância a discussões. Aprender que se o mundo viveu duas semanas sem as minhas opiniões, não precisa delas a todo momento.

1 comment | Categories: Uncategorized Tags: |, ,